
Era uma noite com muitas nuvens escuras, como a anunciar chuvas, atrapalhando o brilho da lua, tornando as ruas mais tenebrosas e silenciosas, quando a lavadeira Maria, se dirigiu, como sempre fazia todas as semanas, à casa da patroa para entregar uma trouxa de roupas limpas e passadas.
A jornada era longa, tinha que caminhar com o pesado fardo sobre a cabeça, cerca de dois quilômetros só de inda, até chegar à casa da madame, recuperar um pouco o folego, para logo em seguida fazer o mesmo trajeto de volta.
Após entregar o grande pacote de roupas arrumadas, a lavadeira, ao retornar, sempre trazia outra trouxa de roupas sujas, era uma troca, um embrulho de roupas lavada e passada por outro por lavar, e dessa vez não foi diferente.
No caminho de volta para sua humilde moradia, com a trouxa na cabeça, arfando com o peso excessivo, a lavadeira, percorrendo o mesmo caminho que fazia costumeiramente, ao passar pela frente da igreja local, diga-se, como de costume, notou que a porta estava aberta e uma missa estava em andamento.
Então, Maria, uma pessoa muito humilde, e completamente, devota aos santos, e principalmente às almas do purgatório, decidiu dar uma pausa na sua caminhada, tanto por se sentir cansada, como para assistir à missa, já que apesar do horário avançado, estava superlotada.
A princípio, bastante intrigada, Maria pensou por alguns momentos: – “Era terça feira, dia de novena, mas naquela hora, pois já passava da meia noite, a missa do terço já teria acabado”.
No entanto, como crente fervorosa que era, entrou, ajoelhou-se, fez suas orações e depois sentou-se no banco mais próximo à saída, já que havia deixado o volumoso fardo de roupas ao lado da porta de entrada, para ficar observando para que ninguém mexesse nele.
A missa foi um tanto quanto diferente das que ela estava acostumada a assistir, era solene, e de certa forma, até hipnótica, o padre falava das almas e de seus martírios para ultrapassar o purgatório e chegar até a redenção perene, havendo muitos murmúrios e falatórios que ela não conseguia entender.
Quando terminou a missa, Maria, a lavadeira, observou a movimentação das pessoas e percebeu que alguns iam logo embora, outros ficavam conversando em grupos, uns andavam rápidos, outros bem devagar, gente em cadeiras de rodas, outros com muletas.
Apesar da pregação fugir do habitual e as características das pessoas que estavam assistindo a missa, além da movimentação estranha do povo, Maria, mesmo estranhando tudo isso, acreditou que era normal depois de qualquer missa tão tarde da noite.
Observa de um lado, observa de outro, as pessoas passando ao seu lado, cada um tomando um rumo diferente, acredita ter visto algumas pessoas, suas conhecidas já falecidas, mas achou que isso só podia ser em função do cansaço e continuou andando para ir embora para sua casa.
Cumprimentou algumas pessoas que passaram ao seu lado, muito embora sem conhece-los, e decidiu ir embora imediatamente, mas ao tentar levantar a trouxa, que no começo estava pesando normalmente, não conseguiu, pois, esta, estava surpreendentemente pesada.
Tenta de um jeito, tenta de outro e nada, o pacote de roupas estava muito pesado e ela não conseguia colocá-lo na cabeça.
Até que por fim, passou por ela um homem muito magro e pálido, caminhando com um pouco de dificuldade e quando o viu se aproximando, Maria lhe pediu ajuda.
— Com licença moço – Disse Maria, se dirigindo ao homem e continuou:
— Por favor me ajude, não estou conseguindo colocar a trouxa de roupa na minha cabeça.
Apesar de muito solícito e interessando, o moço requerido, disse que gostaria muito ajuda-la, mas que não conseguiria, afirmando:
— Peça a outros – disse ele com voz fraca – e continuou:
— Eu morri de fraqueza e emendou:
— Solicite aquele, pois ele morreu de facada. – Apontando para um outro homem, bem vestido e robusto.
Maria, até então, acreditando em uma missa verdadeira, ficou gelada, não querendo crer em seus próprios olhos, mas olhando ao redor, finalmente percebeu que todos estavam se movimentando como verdadeiros fantasmas, com olhos vazios.
Ela correu para fora da igreja, deixando a trouxa de roupas a serem lavas para trás, chegando em sua casa esbaforida de cansada, se jogando no chão da sala e assim permaneceu por um bom tempo, até criar coragem e levantar.
Já um pouco mais calma, Maria ia saindo para procurar o pacotão de roupas, e quando ia abrir a porta da frente, deu de cara com a trouxa de roupa sujas que se encontrava lá, normalmente, como se nada estivesse acontecido.
A partir daquele dia, Maria contava essa história com um ar de mistério e medo. A lenda da Missa dos Mortos se espalhou, e as pessoas evitavam ir à igreja à noite, principalmente ela que nunca mais foi a missa naquela igreja, muito menos a noite e se se quer passa por perto.
Obs: Mamãe contava esta história, para mostrar que a noite fora feita para o descanso das pessoas e o período noturno pertencia às almas perturbadas, penadas, que viviam o tormento eterno do fogo do purgatório, e que o serviço normalmente era só durante o dia.
José Fernandes é advogado e jornalista.